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A Rita

Publicado por em 23 abr, 2015 em BATE-PAPO, Destaques | 0 comentários

A Rita

As influências da cozinheira Rita Taraborelli partiram de várias partes. Em casa, convivia com uma mãe formada em Engenharia de Alimentos e um pai descendente de italianos, apaixonado por comida e livros. Quando adolescente, Rita foi estudar na Austrália, onde virou vegetariana e passou a ter contato com diferentes filosofias ligadas ao movimento. De volta ao Brasil, foi estudar Gastronomia no Senac Águas de São Pedro/SP. Por não comer carne,Rita partiu para a área da confeitaria, onde desenvolveu muitas técnicas e criatividade.

Em São Paulo, trabalhou com chefs como Helena Rizzo, no Maní, onde cuidava das sobremesas e dos pratos vegetarianos da casa. Seis meses depois, a cozinheira partiu para a Europa. Dessa vez, foi estudar no Cordon Vert, em Manchester, no Reino Unido. Após o curso, trabalhou em um albergue em Andaluzia, na Espanha, e foi ali que aprendeu muito sobre cozinhar, convivendo com pessoas do mundo todo.

Quando voltou, não queria mais aquela rotina de cozinha grande e partiu para outros estudos, como o de modelagem de roupas. Foi nesse momento que ela começou a ser chamada para fazer eventos. Hoje, Rita também dá cursos relacionados à culinária e costura.

Crédito: Raquel Taraborelli

Rita em sua cozinha, com avental produzido por ela

Ser jornalista tem suas vantagens, há muita abertura para eventos e afins. Mas quando o assunto é cozinhar, a tal abertura muda de nome e vira acolhimento. Foi assim que me senti na casa da Rita (em Votorantim/SP), que se mostrou tão aconchegante quanto a sua companhia. Após um lindo almoço, muito papo bom e troca de ideias, conversamos no seu ateliê, acompanhadas de bolo de amaranto e cafezinho. 

O que é a gastronomia sustentável e qual sua importância para o atual cenário em que a sociedade se encontra?

Para mim, gastronomia sustentável poderia ser chamada de cozinha de casa. Antigamente as pessoas faziam a comida em casa. Hoje a gente não tem esse contato próximo com o ingrediente, houve um distanciamento com o aspecto culinário. Eu acho que a gastronomia sustentável está ligada à pessoa se conectar com o que ela está consumindo na casa dela, saber a origem do ingrediente, plantar em casa ou comprar na feira um ingrediente de qualidade, sem agrotóxico; chamar os amigos; deixar de comprar industrializados; produzir em casa e com saúde, procurando receitas e ingredientes que estejam de acordo com a realidade dela. Isso também é essencial, a gente usar ingrediente que está no nosso entorno. É que hoje está tão difícil que isso está muito mais no conceito. A gente criou regiões produtivas e mesmo os produtos orgânicos ainda não conseguem atingir a demanda. O consumidor vai mudar a partir do momento em que ele não quiser consumir o transgênico ou o industrializado e quiser comprar um ingrediente de qualidade. A Gastronomia sustentável é a gastronomia do dia-a-dia, que você vai trazer isso para a tua vida: vai fazer tua feira, plantar teu ingrediente, cozinhar, fazer a compostagem, separar [o lixo]. Não é indo comer no restaurante todos os dias, é trazer esse hábito para dentro de casa. Acho que a sustentabilidade está ligada também com uma coisa de classes, assim como distribuição ‘por que um pode mais e um pode menos’. É pensar no organismo como um todo mesmo. Eu acho que as pessoas tem que voltar a cozinhar e parar de pedir no disk.

Crédito: Ana Laura Mosquera

Sobre os orgânicos, qual sua opinião sobre a evolução desse movimento na atualidade?

A pessoa tem que entender primeiro que é pela saúde geral do planeta, que é preciso a gente ter a diversidade, não necessariamente uma monocultura orgânica. Eu acho que hoje o termo agroecológico está mais bem definido porque valoriza a cultura caipira, crioula, indígena. Às vezes o produto agroecológico não tem uma certificação de um selo orgânico ou está em processo, mas é um alimento de qualidade. Primeiro é preciso entender que a monocultura não é legal, transgênico não é legal para a saúde do planeta. Olhando de maneira global, isso está causando muito dano no planeta. A gente está acabando com os pequenos produtores quando produz grandes quantidades. A Monsanto é o maior exemplo disso, vai ficando na mão de uma empresa uma coisa que deveria estar na mão de todas as pessoas. O alimento deveria ser disponível a todos, assim como a água. Pouco a pouco é legal começar a produzir alguma coisa em casa, ir à feira é mais barato do que ir ao supermercado, às vezes você encontrando quem é o produtor, porque o atravessador está ganhando e muito, ainda mais agora que o orgânico virou um conceito. É legal conhecer o que tem perto da tua cidade. Eu não posso produzir nada, então quem que produz? Nem que você vá ao mercado, veja ali o endereço, o telefone. Às vezes você consegue comprar o ingrediente com um preço um pouco mais acessível quando você acessa diretamente o produtor. E isso pouco a pouco vai influenciar a sua vida, porque isso é um estilo de vida. Não tem uma formula fixa. Tem que sempre estar curioso, entender do alimento, da onde vem e procurar encontrar o mais saudável.

Quando o assunto é culinária saudável para as crianças, o que acha da relevância do tema para a educação infantil?

A minha maior referência é porque eu fui uma criança que tive esses estímulos durante a infância, da cozinha de casa, misturando ingredientes de verdade. Eu acho que isso é importante para a educação e pela saúde da criança, para ela ter a noção de que a comida é feita, ela não é comprada. A criança está captando referências que vão construí-la como pessoa e a cozinha é uma coisa que a gente faz todo dia. A gente está alimentando o corpo para ficar saudável, para [a criança] poder brincar, ir à escola, correr, dar risada, dormir, crescer. É importante ela entender isso, seja de maneira prática, mexendo na horta, ou até (o melhor exemplo) os pais cozinhando e tendo bons hábitos dentro de casa. Você tem fazer com que ela queira aquilo, não forçar alguma coisa, porque daí não vai dar certo. A criança gosta de brincar, tem que brincar com ela.

A Rita também tem um blog, o Prato de Papel, com receitas deliciosas, ilustradas com fotos e desenhos igualmente lindos.

Foto 1 – Mariana Harder (hadehaver.com.br)

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