Pages Menu
FacebookTwitterInstagramInstagram
Categories Menu

Quanto afeto tem um ovo frito?

Publicado por em 13 set, 2019 em Destaques, GASTRONOMIA | 0 comentários

Quanto afeto tem um ovo frito?

POR ANA MOSQUERA

“Afeto pode ser rotina sem perder o encanto.” (Daniela Penha)

Chegar a São Paulo tem dessas coisas. Para os bons amantes da mesa, como eu, porém eficazes na cozinha e com uma quantidade moderada de dinheiro no bolso, visitar todos os lugares desejados nem sempre é tão fácil. Nomes de estabelecimentos de todo tipo e nacionalidade vão se acumulando em listas infinitas, ocupando notas do celular, caderninhos espalhados pelas [duas] bolsas e arquivos no desktop.

Conceição Discos chegou ao meu feed por conexões bem específicas, de gente que sabe comer bem, muito longe de se iludir com glamoures passageiros. A verdade é que, após meses de flerte, um fim de dia “mal vivido” me levou até lá, em uma quinta quase quente de outono.

Quem me conhece, sabe o quanto gosto de postar sobre minhas andanças gastronômicas no Instagram, mas é no meu pouco atualizado blog que resta espaço para algumas visitas que considero mais especiais. E, exatamente por esse motivo, é tão complicado resumir a experiência em poucas linhas.

Chegar em um restaurante, sentar no balcão e poder acrescentar um ovo no prato que quiser é o típico afeto que resume o que se busca ao adentrar o mundo de outra pessoa através da comida. É como na casa da sua avó, só que com mais bebida e música alta, em que ela sempre acha que está faltando um ovo para complementar aquela comilança já previsivelmente aconchegante e deliciosa. Essa foi a analogia que me pareceu mais adequada, depois de muitos minutos tentando derramar elogios imprescindíveis no “papel”, pensando na necessidade ou não de detalhar cada comida ali degustada.

A cozinha da Talitha, é claro, está muito longe de se resumir aos ovos fritos em quantidade na frigideira bem quente, tão perfeitos na firmeza de suas claras quanto nas inconsistentes gemas moles extremamente pornográficas, facilmente estouradas ali mesmo, na frente de todo mundo.

Pois para mim, é exatamente nesse gesto, de somar o aparentemente simples ovo frito a cada um dos deliciosos pratos, que mora a delicadeza de sua cozinha. Os detalhes vêm da energia que transborda para além do balcão de fórmica verde, da disposição em sugerir “meio pão de queijo recheado, meio arroz de pato, assim sobra espaço pra sobremesa”, do cuidado em dizer que terá o enorme prazer de fazer a tão esperada rabada para a cliente que acabou de apontar por ali.

Fico feliz em dizer que, hoje, a melhor maneira que encontrei para definir a cozinha da Talitha é “até amanhã”. E com rabada.

Texto escrito já há alguns meses.

Deixe uma resposta