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PÃO FRITO

Publicado por em 28 fev, 2019 em Destaques | 2 comentários

(da série “Cada pessoa é um prato de comida”)

POR ANA MOSQUERA

Minha mãe me lembra pão na chapa. Pão frito, como costumávamos dizer nas tardes em Piracaia ou São Sebastião, tempo em que éramos só nós duas. É claro, às vezes tinha mais gente. Muitas vezes e muito mais gente. Mas vocês entenderam. Quis dizer que morávamos junto, dividíamos a casa e muito mais. Ainda somos amigas, mas muita coisa mudou. Que bom! A mudança trouxe outras pessoas, outros momentos, novos aprendizados, além, é claro, de possibilitar o sentimento de nostalgia que sinto agora, ao escrever essa história.

Tudo mudou tanto que hoje, quando solto um “pão frito” entre os amigos ou em qualquer lugar que seja, as pessoas não entendem. Ou não querem entender. Talvez a imagem de um pão imerso em óleo, pronto para ser escorrido lentamente em papel toalha seja a responsável pela tal cara feia que alguns fazem ao som dessa expressão que me é tão familiar. Memória de comida: cada um tem mesmo a sua.

Mais feio ainda me olharão, e talvez eu mesma o faça, quando disser que o tal pão era feito com margarina. Mas não muita, que fique claro! Minha mãe sempre gostou de tudo “de pouquinho” ou fácil de comer. Lanche “magrelo”, sanduíche no prato, sopa sem queijo ralado, que é pra não perder o sabor. E pão com pouca manteiga, quer dizer, margarina. Nem vou citar que em certa época seu gosto ficou ainda mais exigente, focado em certa marca específica. Só posso dizer que era gostosíssima a tal “mistureba”.

Mas voltemos aos momentos com o tão pão frito, pois são exatamente eles que transformam a comida, lanche ou bebida em memória afetiva. É o que vem junto que alimenta. E aí, uma infinidade de sentidos afloram, muito além do paladar. É o cheiro do pão tostando devagar, até parecer saído da torradeira americana – naquela época não tinha isso em casa, na verdade nunca teve. Também pra quê? Pra perdermos todo o tato de virar o pão na frigideira semi quente, bem devagar até ficar tostadinho dos dois lados?!

E assim, na frigideira não tão grande nem tão pequena, ela ia cuidadosamente pouco besuntando as fatias de pão de forma – cuja marca também ocultarei – e enchendo nossos pratos. Dos amigos, amigos de amigos, prima. Apesar de ela não cozinhar (e nessa época, e talvez por isso, nem eu), nossos encontros eram sempre na cozinha, o maior cômodo da casa. Minha mãe fazia questão de ter mesa grande, nunca faltar coisinhas ao menos para um lanche rápido e sempre oferecer o que tivesse para quem chegasse. Acho que puxei isso dela.

Não aprendi a cozinhar com minha mãe, ela nunca gostou, ainda que tivesse se esforçado muito para preparar algumas coisas quando nós duas mudamos sozinhas para a praia, deixando os mimos da minha avó para longe da rotina. Basicamente nossa comida era arroz, algum grão, um legume refogado – ou aqueles pacotes para yakissoba na manteiga (margarina!) – e a tal da “mistura”, que podia ser carne moída, bisteca ou aquela parte gordinha do frango frita.

A bandeijinha do tal drumet de frango – nunca mais esqueci esse nome, que também não ouvi mais falar – ia de uma vez. Assim como quase acontecia com o feijão, lentilha, grão de bico ou ervilha feitos na hora. A gente tomava que nem sopa, de tão gostoso que ficava. Isso ela aprendeu a fazer bem. Curioso como a pessoa que menos cozinhou para mim na vida pode trazer tantas lembranças relacionadas à comida.

Ah, mas é que a gente comia muito bem. Saíamos para lugares nem tão maravilhosos quanto os que eu vou agora, e por vezes até mais caros. É que a gastronomia nem estava tão difundida assim. Mas ela sempre me ensinou a não hesitar em gastar com comida. Era um prazer da vida, além de necessidade básica, com o qual não se podia fazer miséria. Obrigada, mãe! Hoje não como tanto fora, até porque adoro minha boa comida, mas se tem uma coisa que aprendi com você foi a conhecer e a experimentar o novo.

2 comentários

  1. Minha bisavó Domitila, me lembra pão frito no garfo.

    • Em casa sempre faço o famoso “pão da vó Domitila”, e olha que nem nos conhecemos!

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