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Origem: Brasil

Publicado por em 14 nov, 2014 em EVENTOS |

Origem: Brasil

“A criação de abelhas foi uma das primeiras [atividades de domesticação de animais] desenvolvidas pelo homem, que desde cedo aprendeu a se apropriar de seu mel.” (Maria Leonor de Macedo, em A História da Gastronomia)

No terceiro dia da Semana Mesa SP, conheci o Projeto Iramel, no Mesa Ao Vivo. Infelizmente, por conta de mudança nos horários da programação do Mesa Tendências, havia perdido a palestra do chef Thiago Castanho, que subiu ao palco com o apicultor Charles Pereira e o engenheiro agrônomo Giorgio Venturieri, para falar exatamente sobre o Iramel.

O projeto Iramel tem como objetivo a produção de méis de abelhas nativas, a difusão da tecnologia e a geração de renda para a agricultura familiar.

A pesquisa e a tecnologia da meliponicultura são coordenadas pelo Dr. Giorgio Venturieri, em parceria com os produtores. “A nossa tentativa aqui agora é a de fazer isso se tornar uma realidade, não só no meio acadêmico. Estou satisfeito com o que eu conquistei como pesquisador, mas eu queria muito que aquilo que eu estudei fosse usado pelo povo”, comenta.

O projeto tem a colaboração do chef paraense Thiago Castanho, do restaurante Remanso do Bosque. No local, por meio de preparações que utilizam a matéria-prima, o chef difunde as propriedades e os sabores dos méis de abelhas indígenas amazônicas.

Crédito: Adriano Bellagente

Chef Thiago Castanho

O projeto surgiu em 2002, quando Giorgio, Charles e outros criadores de abelha do Pará começaram a montar um modelo produtivo que foi sendo aperfeiçoado ao longo dos anos.

Hoje, eles têm uma técnica de criar abelhas sem ferrão, que é tão eficiente e competitiva quanto as abelhas europeias. “Elas produzem bastante mel, são altamente sustentáveis, porque você cria a abelha da própria região. Essas abelhas tem uma relação muito forte com a flora local, então elas contribuem para a polinização das plantas. Elas têm uma relação muito forte com a cultura local. O agricultor que nunca criou abelha, para criar uma abelha sem ferrão é muito mais fácil. O investimento é mais baixo. Então tem uma série de vantagens, mas as pessoas não conhecem. A gente valoriza aquilo que a gente conhece.”

Para ele, é isso que falta: as pessoas conhecerem e usarem, porque o produto é bom. Na sua opinião, um evento gastronômico que valoriza a produção sustentável é fundamental para divulgar a importância das abelhas nativas.

E a participação do Thiago nisso tudo é essencial. “O Thiago é lá da minha cidade, conheceu o mel e se encantou. A abelha eu já conheço, o mel, sei que é maravilhoso. Mas com o treinamento que tem para perceber isso, ele logo disse ‘vou te convidar, vamos lá palestrar junto e mostrar para o povo mais essa riqueza da Amazônia’. Porque ele é um mestre em trazer as coisas para o conhecimento de mais gente. Você entendeu a importância dele agora, não é? Ele traz para cá, sai dos confins da Amazônia para um grande centro consumidor”, conta Giorgio.

O criador de abelhas Charles Pereira também falou sobre os benefícios da criação de abelhas sem ferrão, “Se usa muito a Apis mellifera, só que a Apis mellifera tem um problema: ela ferra. Nem em todas as plantas, a Apis melifera consegue ir e fazer a polinização. Em algumas flores, ela só vai e rouba o néctar ou o pólen. Essas abelhas [nativas] não, elas evoluíram. Ela chega lá e vibra o tórax dela, que é uma coisa dessa abelha. A flor tem um estigma que prende o pólen. Quando ela vibra, a flor libera o pólen naturalmente, mas só consegue liberar se tem essa vibração, que só as abelhas semi sociais e as abelhas sem ferrão conseguem fazer, as abelhas nativas. A Apis não faz isso”.

Apesar de todas essas facilidades, ainda há uma grande barreira para a criação dessas abelhas no país. “O problema hoje é: como tornar esse produto legal? Porque não existe legislação que permita vender esse mel de forma legal. Tem legislação para o mel de Apis, para o mel de abelhas nativas não tem. Esse é o entrave no momento”, conclui Charles.

Crédito: Pedro de Carvalho

Giorgio Venturieri, eu e Charles Pereira

O projeto Iramel conta com unidades de pesquisa e produção experimental em propriedades agrícolas pequenas do nordeste do Pará, além de ter apoio tecnológico da Embrapa e financeiro da FAPESPA e CNPq.